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  • Igualdade Racial e de Gênero
20 out 2025

Feira Integrada das Escolas Quilombolas – FIEQ

Resumo executivo

A Feira Integrada das Escolas Quilombolas (FIEQ), criada em 2019 no município de Abaetetuba (PA), constitui uma prática inovadora e estratégica para a valorização da identidade quilombola, a preservação dos saberes ancestrais e o fortalecimento de uma educação contextualizada e antirracista. O município abriga mais de 2.000 famílias quilombolas distribuídas em ilhas e estradas e ramais, atendidas por 18 escolas que somam mais de 1.200 estudantes.

Nesse cenário, a FIEQ surge como resposta ao silenciamento histórico das comunidades tradicionais e como espaço de articulação pedagógica, cultural e política. A iniciativa está alinhada à legislação educacional brasileira (Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008; Resolução CNE/CEB nº 08/2012) e à Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (PNEERQ), reforçando o compromisso do município com a promoção da equidade racial, o combate ao racismo estrutural e a valorização da ancestralidade.

O evento possui como objetivos principais a promoção de uma educação contextualizada e o empoderamento étnico, com ampla participação comunitária; a integração entre escolas quilombolas e o intercâmbio de saberes; estimular a formação continuada de professores; ampliar a visibilidade das práticas culturais quilombolas (gastronomia, religiosidade, folclore, artesanato e oralidade); incentivar ações educativas em relações étnico-raciais e preservação ambiental, vinculadas às mudanças climáticas. A metodologia é participativa, interdisciplinar e territorializada, envolvendo estudantes, professores, mestres da cultura, lideranças comunitárias, movimentos sociais e gestores educacionais.

O processo se estende de junho a novembro, passando por planejamento coletivo, formações, desenvolvimento de projetos escolares e culminando nas exposições e atividades da feira. Na última edição (VI FIEQ, 2024), registraram-se 3.500 participantes, com a realização de mais de 50 apresentações culturais, 36 oficinas e 18 rodas de conversa. Além dos resultados quantitativos, houve impactos qualitativos significativos, como: aumento de 18% na frequência escolar, fortalecimento da autoestima dos estudantes, maior inserção da cultura quilombola no currículo e novas parcerias com universidades (como a implantação de curso em agroecologia pela UFPA). O projeto apresenta alta viabilidade técnica e financeira, sendo sustentado por recursos da Secretaria Municipal de Educação (SEMEC), parcerias institucionais (UFPA, IFPA, organizações da sociedade civil), e forte engajamento comunitário.

O custo médio de cada edição é estimado em R$47.000,00, um valor baixo diante do expressivo impacto social, educacional e ambiental gerado. Assim, a FIEQ consolida-se como referência regional no Baixo Tocantins, fortalecendo os vínculos entre escola e comunidade, preservando os saberes tradicionais, promovendo justiça social e equidade racial, além de contribuir para a formação de cidadãos críticos, conscientes e protagonistas na defesa de seus territórios e culturas.

Ficha técnica

Cidade/Estado

Abaetetuba, PA

Instituição responsável

Secretaria Municipal de Educação (SEMEC) de Abaetetuba

Público-alvo

Mais de 1.200 estudantes quilombolas, distribuídos em 18 escolas localizadas em comunidades rurais, ilhas, estradas e ramais do município, além de professores, lideranças comunitárias, mestres da cultura, famílias e parceiros institucionais

Ações realizadas

A Feira Integrada das Escolas Quilombolas (FIEQ) é desenvolvida por meio de uma metodologia participativa, territorializada e interdisciplinar, articulando diferentes etapas ao longo do ano letivo, com o envolvimento direto das comunidades quilombolas, escolas, mestres da cultura, movimentos sociais e gestores educacionais.

Destarte, a metodologia tem como base os princípios da educação contextualizada, de saberes ancestrais e das diretrizes da educação para as relações étnico-raciais, da qual está fundamentada.

Assim sendo, na Aprendizagem Ativa e Participativa, os estudantes tornam-se protagonistas, investigando, produzindo, apresentando e compartilhando conhecimentos sobre sua história, tais como suas culturas e práticas ambientais.

Neste ínterim, seguindo a educação libertadora baseada nos princípios de Paulo Freire (2011), a metodologia buscou a formação crítica dos sujeitos, promovendo reflexões sobre racismo, identidade, resistência e pertencimento.

O desenvolvimento das ações da Feira Integrada das Escolas Quilombolas é subdividido em etapas, pois antes da exposição das escolas, há um planejamento intenso de atividades, portanto, é estabelecida uma dinâmica de trabalho que compreende os meses de junho a novembro.

Seguindo as etapas:

  • A primeira: Planejamento participativo, que consistiu na definição do tema central da feira, elaboração do cronograma e organização da logística do evento. Esse processo conta com a realização de reuniões que envolvem representantes das escolas, movimentos sociais e poder público. Participam ativamente desta fase a equipe gestora da Secretaria Municipal de Educação e Cultura (SEMEC), lideranças quilombolas e professores da rede municipal.
  • A segunda: Mobilização Comunitária, voltada para a sensibilização das comunidades quilombolas quanto à importância da feira e o estímulo à participação coletiva. Essa mobilização ocorre com a colaboração de mestres da cultura local, associações quilombolas, pais, lideranças comunitárias, além de coordenadoras e profissionais do CRÁS Quilombola.
  • A terceira etapa: Formação dos Educadores, com a realização de oficinas e rodas de diálogo direcionadas aos professores da rede municipal. Nessas formações, são abordadas temáticas como educação quilombola, saberes tradicionais e meio ambiente. A formação conta com a atuação de formadores da SEMEC e parceiros institucionais.

Posteriormente, cada escola envolvida desenvolve projetos temáticos com base nas práticas culturais locais, como plantio, pesca, artesanato, contação de histórias, danças, entre outras. Essas atividades são elaboradas de forma colaborativa entre estudantes, professores, famílias e mestres de saberes tradicionais – geralmente, pessoas mais velhas das comunidades quilombolas.

A etapa central do processo é a Realização da Feira – FIEQ, um grande evento com exposições, apresentações culturais, rodas de conversa, oficinas e vivências com temáticas relacionadas à cultura quilombola, meio ambiente e saúde. Participaram dessa celebração toda a comunidade escolar e quilombola, além de autoridades locais e parceiros externos.

A Feira Integrada das Escolas Quilombolas (FIEQ) é organizada de forma coletiva e territorializada, respeitando as especificidades geográficas e culturais das comunidades quilombolas do município de Abaetetuba. Essa organização se dá por meio da formação de coletivos escolares, compostos por escolas quilombolas localizadas em regiões próximas entre si — seja em ilhas, estradas ou ramais — facilitando a articulação entre as equipes pedagógicas, lideranças comunitárias e demais atores envolvidos.

Na edição de 2024, essa estrutura coletiva ficou evidente ao longo da programação. Cada coletivo foi responsável por organizar uma etapa da feira em sua própria comunidade, garantindo a participação ativa de estudantes, professores, mestres de saberes tradicionais, famílias e parceiros locais.

Essa estratégia fortaleceu os vínculos entre as escolas e ampliou o alcance do evento, permitindo que as atividades acontecessem de forma descentralizada, mas integradas por um mesmo propósito pedagógico e político.

Por exemplo, no dia 19 de novembro, as comunidades de Tauerá-Açu, Acaraqui e Genipaúba formaram um coletivo e realizaram conjuntamente sua etapa da feira, envolvendo cinco escolas da região. No mesmo dia, outra etapa foi conduzida pela escola da comunidade quilombola de Caeté.

Essa lógica se repetiu nos dias seguintes, com outros coletivos assumindo a responsabilidade pela realização da feira em seus territórios, como os coletivos de Alto e Médio Itacuruçá, Baixo Itacuruçá, Assacu e Ramal Bacuri.

Durante os eventos, foram realizadas diversas atividades pedagógicas, culturais e comunitárias voltadas a públicos de diferentes faixas etárias. As ações desta edição contaram com o apoio de instituições públicas e grupos parceiros, conforme destacado a seguir:

  • Oficina “Alimentação Saudável na Primeira Infância”, voltada para crianças de 4 a 7 anos, realizada com o apoio da Secretaria Municipal de Agricultura (SEMAGRI).
  • Palestra com dentista, incluindo aplicação de flúor e distribuição de kits odontológicos, aberta à comunidade geral, com apoio da Secretaria Municipal de Saúde Bucal (SESMAB).
  • Oficina “A intensificação da produção do açaí em território quilombola e seus efeitos na biodiversidade”, promovida por pesquisadores da UFPA, aberta ao público.
  • Atividades culturais como tranças e pintura corporal, voltadas à comunidade geral, organizadas pelo Núcleo de Políticas Afirmativas Quilombolas (NUPAC).
  • Oficina de Literatura Afro-brasileira para crianças de 4 a 5 anos, organizada pela Coordenação de Educação Infantil.

Momento importantíssimo para todos que compõem as escolas quilombolas que estão no município de Abaetetuba.

Resultados e indicadores

Na última edição, a VI FIEQ apresenta resultados concretos, tanto quantitativos quanto qualitativos, que atestam sua efetividade como uma boa prática educacional, cultural e socioambiental.

Os indicadores levantados referem-se ao engajamento comunitário, à qualidade do processo pedagógico, ao fortalecimento da identidade quilombola, bem como ao impacto na percepção ambiental e antirracista.

Ao todo, 18 escolas quilombolas do município de Abaetetuba participaram ativamente da feira, o que representa a totalidade das unidades de ensino quilombola da região. A ampla adesão das escolas reforça o compromisso com uma educação contextualizada e enraizada nos saberes das comunidades.

O evento contou com a presença de aproximadamente 3.500 pessoas, de diferentes faixas etárias, entre estudantes, professores, familiares, lideranças quilombolas, profissionais parceiros e membros da comunidade em geral.

Dentre os envolvidos, mais de 800 estudantes participaram diretamente das atividades, desenvolvendo projetos escolares, participando de oficinas, exposições e apresentações culturais. Essa participação ativa proporcionou uma experiência educativa integrada, interdisciplinar e baseada em vivências reais.

Foram realizadas também mais de 50 apresentações culturais, incluindo danças, cantos, culinárias tradicionais, narrativas orais e encenações. Essas manifestações artísticas representaram a riqueza e a diversidade cultural das comunidades quilombolas envolvidas.

E aproximadamente 36 oficinas temáticas, com destaque para práticas ligadas à agricultura familiar, medicina tradicional, artesanato, uso de turbantes, sustentabilidade e manejo ambiental. As oficinas foram conduzidas por mestres dos saberes tradicionais, educadores e convidados externos, proporcionando trocas significativas entre gerações e saberes.

Também foram promovidas 18 rodas de conversa e debates temáticos, com foco em questões relevantes para as comunidades, tais como saúde, meio ambiente, identidade, ancestralidade, empoderamento étnico, histórias quilombolas e políticas públicas. Esses espaços de diálogo fortaleceram a escuta ativa, o protagonismo e a construção coletiva de conhecimentos.

Os resultados da VI FIEQ demonstram a potência da educação quilombola como estratégia de valorização cultural, inclusão social e formação cidadã, reafirmando a importância da continuidade e fortalecimento dessa política educacional no município de Abaetetuba.

Como indicadores qualitativos, podemos citar a valorização da identidade quilombola, combate ao racismo, engajamento das comunidades, fortalecimento do currículo escolar no que diz respeito à Lei 10.639/03 e à Resolução 08/2012.

Os relatos dos professores e gestores das escolas quilombolas mostram que a autoestima dos estudantes mudou de forma significativa a partir da prática da Feira Integrada. Além disso, as escolas passaram a desenvolver mais projetos contínuos sobre a cultura quilombola, o que possibilitou aos estudantes demonstrarem maior compreensão sobre a relação entre território, cultura e sustentabilidade.

Como exemplo desses impactos, é possível citar o aumento da frequência escolar, pois as atividades da feira contribuíram para um crescimento de 18% na frequência escolar entre os alunos quilombolas no trimestre posterior ao evento.

Além disso, houve a ampliação de parcerias, já que após a VI FIEQ, as escolas quilombolas se aproximaram das universidades locais, resultando na proposição de novos projetos de extensão universitária voltados à educação quilombola, como a oferta do curso de Agroecologia na Universidade Federal do Pará, Campus de Abaetetuba.

Os indicadores mostram que a feira não é apenas um evento pontual, mas sim um processo formativo contínuo, com impactos duradouros na vida escolar, nas relações comunitárias e na promoção da cidadania e da equidade racial.

Orçamentos e fontes

A execução da Feira Integrada é possível mediante as parcerias comunitárias, forte mobilização social e com recursos públicos moderados. Sua sustentabilidade está ligada diretamente ao engajamento das comunidades quilombolas, das escolas e do poder público local, além do baixo custo operacional em comparação ao alto impacto social, educacional e ambiental gerado.

Com relação aos recursos humanos, tem-se o envolvimento da Equipe Técnica da SEMEC, tanto as representações das coordenações envolvidas quanto a equipe de mídia, além dos recursos materiais.

Para a realização da Feira Integrada da Educação Quilombola, foram estimados custos em diferentes categorias essenciais à viabilização das atividades. A seguir, apresenta-se a descrição das categorias e os respectivos valores estimados de R$ 47.000,00:

  • Infraestrutura: Incluiu a montagem de tendas, disponibilização de cadeiras, sistema de som, instalação de palcos, materiais de decoração, produção de banners e confecção de camisas para a equipe e participantes. O custo estimado para essa categoria foi de R$ 12.000,00.
  • Transporte: Compreendeu os deslocamentos fluviais e terrestres de alunos, professores e colaboradores entre as comunidades quilombolas e os locais de realização da feira. Essa logística foi fundamental para garantir a ampla participação e acessibilidade, com um custo estimado de R$ 12.000,00.
  • Alimentação: Abrangeu a oferta de lanches, água e refeições destinadas aos participantes, equipes de apoio e convidados ao longo dos dias de realização do evento. O valor estimado para esse item foi de R$ 15.000,00.
  • Comunicação e Divulgação: Envolveu ações de mobilização e visibilidade da feira, por meio de postagens em redes sociais, veiculações em rádios locais, além da produção de faixas e cartazes informativos. O custo estimado foi de R$ 3.000,00.
  • Formações e Planejamento: Referente à realização de oficinas formativas com educadores, lideranças comunitárias e demais envolvidos na organização da FIEQ, fortalecendo os aspectos pedagógicos e logísticos do evento. O investimento previsto para esta categoria foi de R$ 5.000,00.

A execução da VI FIEQ foi possível graças à combinação de diferentes fontes de financiamento e apoio técnico: apoio da Secretaria Municipal de Educação (SEMEC) com verba do orçamento da educação e custeio de transporte escolar; parcerias institucionais com universidades públicas e instituições de ensino superior (UFPA e IFPA), com ações de extensão, oficinas e assessoria pedagógica; organizações da sociedade civil e movimentos sociais, os quais colaboraram com a formação de professores, doação de materiais e mobilização comunitária.

Recursos não financeiros (cooperação comunitária): as próprias comunidades quilombolas contribuíram com alimentos, artesanato, apresentações culturais e força de trabalho voluntária. Além disso, o evento também já conta com a parceria de organizações não governamentais como a FASE – Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional.

A prática é tecnicamente viável por apresentar:

  • Equipe técnica capacitada: a SEMEC de Abaetetuba conta com coordenação pedagógica voltada à educação quilombola, além de professores com experiência em projetos comunitários.
  • Base legal e normativa sólida: a ação está respaldada pela legislação nacional (Leis 10.639/03, 11.645/08 e Resolução CNE/CEB nº 8/2012).
  • Engajamento das comunidades: a adesão das escolas e das lideranças quilombolas garante a legitimidade e continuidade do projeto.

Contato para replicação

91 9230-0052

Materiais complementares

Autor

Imprensa da Fundação Ulysses Guimarães

Ficha técnica

Cidade/Estado

Abaetetuba, PA

Instituição responsável

Secretaria Municipal de Educação (SEMEC) de Abaetetuba

Público-alvo

Mais de 1.200 estudantes quilombolas, distribuídos em 18 escolas localizadas em comunidades rurais, ilhas, estradas e ramais do município, além de professores, lideranças comunitárias, mestres da cultura, famílias e parceiros institucionais

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