Adriano Ceolin,
consultor da FUG
A Fundação Ulysses Guimarães ganhou cópia de um manuscrito inédito do último discurso feito por Ulysses Guimarães como presidente nacional do MDB.
O documento histórico registra as anotações de Ulysses para o discurso proferido na convenção de 24 de março de 1991, quando ele deixou a presidência do partido.
Foi um dos momentos mais importantes da história do MDB. Na oportunidade, Ulysses estava deixando o comando da sigla após 20 anos no posto.
O deputado federal chegou no comando do MDB em 1971, num momento de crise em que a sigla quase se auto extinguiu devido ao mal resultado na eleição de 1970.
Ao chegar à presidência do MDB para substituir Oscar Passos, Ulysses transformou o partido em oposição efetiva à ditadura militar.
No período, também surgiu a defesa da tese de Assembleia Nacional Constituinte, que construída nos dois primeiros congressos do MDB em Porto Alegre e no Recife.
O manuscrito foi preservado por Marilda Castelo Branco, que atuou como secretária de Ulysses a partir da Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988 até o trágico falecimento do líder em outubro de 1992.
A entrega de uma cópia desse material ao acervo da Fundação garante que a visão de Ulysses sobre a transição democrática e a ética pública permaneça acessível às futuras gerações.
Composto por 11 páginas de punho próprio, o manuscrito revela a profundidade do pensamento de Ulysses no momento em que passava o bastão para Orestes Quércia.
Na época, Quércia havia encerrado seu mandato como governador de São Paulo (1987-1990). Quatro anos depois, ele foi candidato a presidente da República.
Enquanto as atas oficiais da nona Convenção Nacional registram apenas os ritos administrativos e a concessão da palavra ao deputado para “saudações”, o documento pessoal preserva a carga emocional e ideológica do momento.
Entre os pontos de maior relevância histórica presentes no texto, destacam-se: A Ética e as “Mãos Limpas”: Em um dos trechos mais emblemáticos, Ulysses reflete sobre a integridade na vida pública, declarando: “Aqui estão minhas mãos. Examinemnas. Estão limpas”.
A Luta Contra a Ditadura: O líder evoca os mártires da resistência, como Tancredo Neves, Teotônio Vilela, Rubens Paiva e Vladimir Herzog, afirmando que o sacrifício deles não foi em vão e que o PMDB é “o passado que não passou”.
O Projeto de Nação: Ulysses define o desenvolvimento como a meta central do partido, chamando-o de “desafio da nossa geração” e criticando ferramentas econômicas recessivas da época, como as medidas provisórias e o sequestro de poupanças.
A “Planície” e a Rua: Ao se despedir da presidência, ele deixa claro que não se aposentaria da vida pública: “Vou para a planície, mas não vou para casa… Vou para a rua, porque o governo desgovernou a rua”.
A presença deste documento no Acervo Digital Fundação Ulysses Guimarães consolida a memória de um período em que a política era discutida.
O manuscrito foi reconstituído por meio de ferramenta de inteligência artificial para facilitar a leitura e compreensão.
Companheiros e Companheiras,
Presidente Orestes Quércia Dirigentes Nacionais do PMDB recém-eleitos Srs. Governadores, Prefeitos, Senadores, Deputados Federais e Estaduais eleitos Senhoras e Senhores
Convencionais Companheiros e Companheiras
Começo pelo começo. Pelo nosso começo: os militantes. Sem eles, não somos nada. Com eles, fomos para as ruas. Repito o que disse um dia: o PMDB tem o tamanho de seus militantes.
Saúdo os dirigentes e funcionários do Partido, em todos os níveis. São eles que guiaram a mão da esperança democrática a tantos portos de vitória.
Orestes Quércia exemplifica a vanguarda democrática pelo comando e trabalho, pelo espírito de combate, pela condenação radical de quem sempre preferiu o conforto da servidão. Abraço fraterno e confiante em nosso Chefe, Orestes Quércia. A Democracia verticaliza vocações e talentos. A ditadura horizontaliza e engessa na horizontalidade medíocre, mentirosa e corrupta.
Orestes Quércia viveu uma bela história, que começou numa pequena casinhola, no pequeno município de Pedregulho, no Estado de São Paulo, e tem todas as condições para terminar no Palácio do Planalto, em Brasília.
Companheiros da Imprensa, o Rádio e a Televisão. São nossos espelhos. Às vezes deformados. Mas, entre outros, prestam aos políticos o serviço da verdade, do profilático do temor. O medo da denúncia e da crítica exerce preventiva ação profilática contra a preguiça, a ausência, a demagogia e a corrupção.
Na minha Presidência de vinte e um anos, sou devedor a todos os nossos servidores, representados em seus chefes: Teresa, Cleusa, Chagas, Claudio Cabrini… Meu afeto de Sancho Pança ao meu fiel escudeiro, Waldo. Desta Tribuna mando um beijo à Mora. Beijo de amor e de gratidão.
Tantas vezes saí de casa, sabendo que não voltaria. Dividido entre a família e o ideal. Fiquei inteiro. Porque não vi lágrimas nos olhos, nem lamentos ou apelos de prudência nos lábios de Mora. Tantas vezes quando desce a prudência, desaparece a coragem.
Nossos mortos levantaram-se de seus túmulos. Venham aqui e agora testemunhar que sua morte não foi em vão. Agora os sobreviventes não são uma raça de fariseus, de vendidos, de alugados, de traidores. Venham todos. Venham os mortos de morte morrida, simbolizados em Joaquim Nabuco, em Teotônio Vilela, em Tancredo Neves.
Venham os mortos de morte matada e crucificada: Rubens Paiva, Vladimir Herzog, o operário Manoel Fiel Filho, o político Santo Dias, a camponesa Margarida Alves. Não digam que isso é passado. Passado é o que passou. Não passou o que ficou na memória ou no bronze da História. O PMDB é também o passado que não passou.
Vozes que caminham pelos caminhos continentais deste País, mais do que descobrir a geografia territorial, descobriram a geografia da gente e da fome e sede que não passam. Não passaram nunca os dias inaugurais da campanha de 1974, no Rio Amazonas, as populações ribeirinhas, os caboclos… Venham os homens de sandálias e torço nu, as mulheres tostadas de sol e esgotadas pela procissão de sofrimentos.
Queriam ver acrobatas enlouquecidos pela liberdade, pela resistência, pulando do trapézio sem rede de segurança. Da campanha civilista, a fotografia de Rui Barbosa equilibrando-se em uma canoa, sob o sol da Bahia, de terno, colete e gravata, sob o sol de brasas. As sandálias de couro de cabra de Gandhi, a campanha civilista de Rui e a barca da anticandidatura, desafiadores do militarismo.
Não passará o tropel de cavalos maus. Ouvi o grito de “Diretas já”, o amordaçado na garganta de milhões de brasileiros, lançando-se e se afirmando pelas ruas e praças deste País. A bandeira brasileira não flutuará somente nos quartéis e edifícios públicos. O verde-amarelo tremulará no peito dos operários, das crianças, das mulheres, dos desgraçados do meu Brasil. O Hino Nacional voltou a ser a Marselhesa da Coragem, o Ave Brasil dos povos civilizados. Mais do que em bandas marciais, estava na garganta das multidões. Mas o PMDB não deve dormir com os louros da vitória. Não vive de passado, vive com o passado.
No presente, nosso compromisso é com o desenvolvimento. Não são os homens que conduzem a bandeira. É a bandeira que arrasta os homens. Nossa bandeira é o desenvolvimento e Orestes Quércia a segue, à frente de todos nós.
Para o PMDB, a meta é o desenvolvimento. A bala que mata a inflação é o desenvolvimento, não os sequestros de poupanças populares, a recessão que demite trabalhadores, decreta a moratória e a falência das empresas, esvazia prateleiras na permanente ditadura dos decretos, leis… malditas medidas provisórias.
O PMDB prega o desenvolvimento na construção mundial da encíclica Populorum Progressio. Desenvolvimento com o rosto humano de paz, como programa de recuperação de homens, mulheres e crianças. O primeiro dever de Estado é a Justiça. No Brasil, o Estado tem sido omisso, cartorial, politicamente incompetente, moralmente, mais do que criminoso, genocida.
Não é o único culpado, mas é o grande culpado. Temos de reedificá-lo. O desenvolvimento é o desafio da nossa geração. Neste país a coisa vai mal. O PMDB vai reedificar o Brasil de Juscelino Kubitschek, isto é, o Brasil da esperança e do otimismo. Eis o logotipo do PMDB: desenvolvimento já. Meus irmãos: agora chegou a hora do PMDB. Permitam que agora fale de mim. Já fiz discursos com amor e com cólera. Com cólera, não com raiva. Em política, raiva só ferrugeia ou caruncha. Escrevi este discurso com o coração e li-o com os olhos úmidos.
Quem disser que em política menos difícil do que subir é descer, erra. É difícil descer carregando o fardo pesado do dever cumprido e da honra não desmoralizada pela impunidade. Não descer, honrado pelos caminhos que me viram passar. Deixo mostrado às gerações e aos meus filhos o exemplo de vida pública, íntegra e sem mácula.
Posso dizer à minha Pátria e aos meus filhos: Aqui estão minhas mãos. Examinem-nas. Estão limpas.
Desço. Vou para a planície, mas não vou para casa. Vou morar fardado, não de pijama. Política se faz na rua ou com a rua. Vou para a rua, porque o governo desgovernou a rua. Calou o Planalto. O PMDB removerá do Estado um século de carência republicana.
Meu fiel PMDB: Vá! Que Deus te abençoe. Vá em frente. Caminhe para o sol, que é luz. Que Deus te abençoe e a Pátria te diga: “Muito obrigado”. Cumpriste o teu dever.
