O painel “Mulheres no Centro do Debate Nacional”, realizado durante o Encontro Nacional O Brasil Precisa Pensar o Brasil no dia 22 de outubro, reuniu lideranças femininas de diferentes regiões do país em um amplo diálogo sobre violência de gênero, representatividade e políticas públicas voltadas às mulheres.
A mesa foi mediada pela presidente nacional do MDB Mulher, Kátia Lôbo, e contou com a participação da deputada federal Iza Arruda (PE), das deputadas estaduais Andréia Xarão (PA), Dirce Heiderscheidt (SC) e Antônia Sales (AC), da ex-prefeita de Dois Irmãos (RS), Tânia da Silva, e da vereadora de São Paulo, Sandra Santana.
Na abertura, Kátia Lôbo apresentou dados alarmantes sobre o feminicídio no Brasil e defendeu o uso do termo “extermínio das mulheres” para descrever o avanço da violência física, psicológica, moral e política contra o público feminino.
Ela destacou que mais de 1.400 mulheres foram assassinadas em 2024, sendo 63,6% negras e 70% com idades entre 18 e 44 anos, e chamou atenção para a vulnerabilidade das vítimas dentro da própria casa — cenário de 64% dos casos de feminicídio.
“Nós não estamos aqui para dourar a pílula. Estamos aqui para mostrar a triste realidade que as mulheres vivem no nosso país”, afirmou.
Kátia também lembrou o papel histórico do MDB na criação de políticas públicas voltadas à defesa dos direitos das mulheres, como a criação das delegacias especializadas e o pioneirismo na formação do Conselho da Condição Feminina em São Paulo, em 1982.
Para ela, o enfrentamento à violência passa pela autonomia econômica e pela capacitação profissional, fatores essenciais para romper o ciclo da dependência.
A deputada federal Iza Arruda (PE) destacou que o feminicídio é “a face mais cruel da desigualdade” e ressaltou a importância da denúncia como forma de prevenção.
“E eu quero dizer a vocês, com toda a força da minha voz, as mulheres, as pessoas, precisam denunciar, porque a denúncia salva vidas. É através da denúncia que o Estado tem a oportunidade de escutar e o dever de agir”, afirmou.
Iza relatou experiências de seu mandato e mencionou a criação do programa Salas Lilás, implantado no SUS, que garante atendimento especializado a mulheres vítimas de violência. Também citou o projeto que institui monitoramento eletrônico de agressores, permitindo alertas automáticos à vítima em caso de aproximação indevida.
Experiências da gestão municipal
A ex-prefeita Tânia da Silva (RS) compartilhou sua trajetória como primeira mulher negra eleita prefeita em uma cidade de origem alemã, relatando políticas locais que priorizaram o acesso das mulheres a creches, saúde e moradia.
Ela defendeu a valorização da mulher na política e alertou para o desafio de ocupar espaços de poder sem romantização.
“É difícil nós estarmos na política. É difícil nós estarmos nesse espaço em que nós temos que ter voz firme e não podemos gritar jamais, senão nós somos fracas. […] Porque, senão, o nosso título é de mulher enfurecida, mulher fora do controle”, afirmou.
A deputada estadual Dirce Heiderscheidt (SC) apresentou dados sobre o aumento dos casos de violência no estado, que registra mais de oito ocorrências por hora e mais de 23 mil ações judiciais por violência doméstica entre janeiro e julho de 2024.
Ela destacou a atuação do Observatório da Violência contra a Mulher, da Assembleia Legislativa catarinense, e defendeu mais mulheres em espaços de decisão política.
“Quando faltam mulheres nos espaços de decisão, faltam também políticas públicas com olhar feminino, que enxergam raízes da desigualdade e da violência de gênero”, pontuou.
Voz das mulheres ribeirinhas
A deputada estadual Andréia Xarão (PA) trouxe ao debate a realidade das mulheres ribeirinhas e das florestas do Marajó, que enfrentam situações de violência em locais sem acesso a delegacias, postos de saúde ou serviços de acolhimento.
Ela defendeu que essas populações sejam incluídas nos programas nacionais de proteção e políticas públicas voltadas à igualdade de gênero.
“É difícil uma mulher ser ouvida quando vive a horas de barco da cidade mais próxima. […] Essas mulheres precisam estar no projeto de governo”, destacou.
A deputada estadual Antônia Sales (AC) relatou a realidade das mulheres da Amazônia e do Acre, que enfrentam dificuldades de acesso a serviços públicos e sofrem com o isolamento.
Ela defendeu políticas voltadas às mulheres do campo e ressaltou a necessidade de educação e conscientização desde a infância para combater a cultura da violência.
“Porque ao final quem pare os homens somos nós as mulheres, é nós que parimos, é nós que trazemos esses homens para o mundo, e como é que nós estamos passando os valores para eles desde criança, respeitar a mãe, respeitar a mulher”, declarou.
Presença feminina nos espaços de poder
Encerrando o painel, a vereadora Sandra Santana (SP) ressaltou a importância da inclusão das mulheres em espaços de decisão política e a necessidade de que mais eleitoras escolham candidatas mulheres.
“Mas se nós somos 53% da população, por que é que nas casas de lei esse número não traz o retrato da realidade?”, questionou.
Sandra destacou ainda que o debate sobre o Brasil precisa incluir as mulheres em todos os temas — da primeira infância à segurança pública — e que ampliar a representatividade feminina é condição para construir uma sociedade mais justa e igualitária.
Ao encerrar o painel, Kátia Lôbo enfatizou que a Fundação Ulysses Guimarães é “o útero do partido”, onde as lideranças femininas do MDB são formadas e apoiadas.
“O que queremos é respeito. E respeito se faz com história, com voz e com presença”, concluiu.
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Assista ao painel na íntegra: