Adriano Ceolin
Jornalista, pesquisador
e consultor da FUG
Há 110 anos nascia Ulysses da Silveira Guimarães, na antiga Vila Itaquera da Serra, município de Rio Claro, interior de São Paulo. Era uma sexta-feira, 6 de outubro de 1916. No início daquele ano, entrara em vigor o primeiro Código Civil do País.
Sim, apenas 10 meses antes de o menino Ulysses nascer, o cidadão brasileiro ainda tinha seus direitos civis regidos por leis portuguesas. Curiosamente, aquele mesmo menino entraria para história como responsável por promulgar a Constituição de 1988, apelidada como “Constituição Cidadã”.
Ulysses ganhou esse nome por escolha do pai, o coletor de impostos Ataliba Silveira Guimarães. Ele se inspirou no protagonista da “Odisseia”, obra atribuída a Homero que moldou a formação cultural do mundo ocidental. Ataliba queria que seu primogênito tivesse como virtude a coragem do herói grego.
A mãe de Ulysses se chamava Amélia Correia Fontes, e ela era professora primária. Biógrafos acreditam que ela tenha incentivado o gosto do filho por literatura e pelo magistério. Aos 17 anos, Ulysses formou-se como professor primário. Depois, já em São Paulo, foi professor de ensino médio e, por fim, de ensino superior.
O gosto pelas grandes obras se mostrou por meio de seus discursos, que sempre foram permeados por citações literárias. Nos anos 1970, a mais emblemática delas foi “Navegar é Preciso”, que é atribuída ao general romano Pompeu, mas que acabou imortalizada pelo português Fernando Pessoa.
Já nos anos 1980, os discursos de Ulysses ficaram marcados por citar a obra de João Guimarães Rosa. Mais especificamente “Grande sertão: veredas”, romance que neste ano de 2026 completa 70 anos de lançamento.
Para celebrar os 110 anos de nascimento de Ulysses, reproduzimos abaixo o discurso “A Travessia”, que serviu como proposta alternativa ao projeto de redemocratização encampado pelo regime militar que se findava. A propósito, “travessia” é a palavra que encerra o livro de Rosa.
O discurso foi proferido em 24 de agosto de 1983 na tribuna da Câmara dos Deputados. Naquele momento, o PMDB liderava a campanha de Diretas Já pelo País. Como presidente nacional do partido, Ulysses comandou esse processo.
No discurso, Ulysses defendeu a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte e a restauração das eleições diretas e universais para a Presidência da República como o único caminho legítimo para o País.
Na fala, ele criticou duramente a gestão do governo autoritário, apontando problemas como a estagflação, desemprego em massa, endividamento galopante, submissão ao FMI e escândalos de corrupção.
Em vez de atuar apenas na oposição sistemática, o PMDB apresentou alternativas institucionais e econômicas, incluindo a retomada do crescimento, a valorização dos salários, as reformas fiscal e agrária, e combate às desigualdades regionais.
A referência ao livro de Guimarães Rosa consta no fim de sua fala, precisamente na página 14 do discurso. Ele introduz a citação ao falar sobre a política como esperança para o povo:
“Ouçamos o grande Guimarães Rosa nos ‘Sertões e Veredas’: ‘digo: o real não está na saída e nem na chegada. Ele se dispõe para a gente é no meio da travessia’.”
Essa passagem é fundamental para o discurso, pois traz a metáfora que dá título ao documento (“A Travessia”).
Logo após a citação, Ulysses conclui que o povo brasileiro atravessará o “atual deserto” e que, por meio da democracia, chegará à prosperidade e ao bem-estar.
Nos meses seguintes a esse discurso de Ulysses, a campanha das Diretas pegou fogo. Sobretudo, após o comício realizado em novembro de 1983 na Praça Charles Miller, em São Paulo.
Houve manifestações similares em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. O último grande comício antes da votação da Emenda das Diretas aconteceu no dia 16 de abril de 1984, no Vale do Anhangabaú, em São Paulo.
Cópias do discurso “A Travessia” foram enviadas por Ulysses para os diretórios estaduais como forma de estimular o debate sobre o tema.
Confira abaixo uma cópia do discurso original enviado por Ulysses para o diretório regional do MDB no Estado de São Paulo.
O documento foi digitalizado e será incorporado ao Acervo Digital da Fundação Ulysses Guimarães.