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Adeus às armas? #SóQueNão (A ruptura do ocidente e o advento de um novo impulso armamentista)
31/03/2025
Por José Fogaça
Na Porto Alegre dos anos 60, antes da existência do viaduto Thompson Flores, na esquina da João Pessoa com a André da Rocha, havia um quartel da Polícia Especial do Exército. No paredão frontal à Av. João Pessoa, lia-se, escrita com destaque, a famosa frase atribuída ao autor romano Flávio Vegécio: si vis pacem para bellum – se queres a paz, prepara a guerra.
A literatura militar de Vegécio, foi produzida no século IV e sobreviveu ao tempo, chegando à Idade Média e ao Renascimento. Seu legado, de que a guerra é um estado permanente e necessário, atravessou os séculos.
No entanto, com o fim da Guerra Fria e com a extinção da União Soviética, tudo fazia crer que o mundo tinha finalmente se embrenhado definitivamente na ideia do pacifismo e do arrefecimento às armas. Um caminho para o qual paradoxalmente a ameaça de devastação nuclear também colaborou.
O mundo hibernou os últimos 80 anos com a ideia de que uma Terceira Guerra Mundial era impossível.
Essa certeza, no entanto, começa a deixar de existir.
Li recentemente uma frase que diz muito do atual estado de coisas no mundo: “os 450 milhões de europeus não deviam depender dos 340 milhões de americanos para fazer frente a 140 milhões de russos que não conseguem derrotar 38 milhões de ucranianos.”
Há fatos e evidências do processo em curso em várias regiões do planeta, que, já há algum tempo, vêm causando surpresa e perplexidade.
São os primeiros sinais de que os termos da paz que foi selada pelas potências vitoriosas em Potsdam, em 1945, estão caindo realmente no esquecimento.
Desde a criação da Comunidade Europeia, o mundo havia criado uma esperança: as condições para uma nova grande guerra na Europa nunca mais voltariam.
No entanto, estamos no fim do primeiro quarto do sécuo 21 e uma decisão recentemente aprovada no âmbito da União Europeia inflexiona a História e começa a desmanchar a imagem de um Ocidente ancorado em estabilidade e paz, imagem que até aqui havia preponderado aos olhos do mundo. Para a geração nascida no após-guerra, que é a minha, isso soa como um retrocesso assustador.
A nova diretriz de guerra da União Europeia, é, de fato, uma mudança de rumos que não estava no script da história recente. O núcleo que conduz essa mudança, o Alto Comissariado de Políticas de Segurança da UE, reuniu-se em 19 de março últiimo para produzir um “joint white paper”.
É um documento que parte do zero, isto é, começa como uma página totalmente em branco.
Esse “joint white paper” contém algo que realmente não existia até aqui. É verdadeiramente algo novo, uma decisiva e marcante mudança de rota, algo impensável para os homens e mulheres da minha geração, que nascemos no após-guerra e se resume a intenção, sequer suspeitada nos últimos 80 anos, de procurar não depender mais do apoio bélico dos Estados Unidos e de buscar o rearmamento da Europa. Uma disposição que se supunha que jamais voltaria a acontecer.
A Alemanha acaba de aprovar no seu Bundestag um plano extremamente ambicioso de rearmamento, com um investimento
para os próximos anos que equivale em euros a 3 trilhões de reais em equipamentos e armas de guerra.
Isso muda muita coisa. Lembrei-me daquela sentença que me causava um certo mal-estar, a frase no paredão do quartel da Polícia do Exército. Aquela frase, vinda lá do mais fundo da História, talvez contivesse, mais do que uma filosofia, talvez contivesse, isto sim, uma terrivel verdade sobre a essência da espécie humana que habita a face da Terra: nossa natureza é indissociável de um impulso profundo de autodestruição. Si vis pacem para bellum. Nossa condição natural é a de estado de guerra permanente e necessário.
Está de volta um conceito que minha geração pensava que havia há muito derrotado: só terá paz neste mundo quem estiver armado até os dentes para a guerra.
NOTA: O papel que o presidente Donald Trump dos Estados Unidos vem exercendo em favor da ruptura do Ocidente, em seus poucos dias iniciais de governo, é algo tão complexo e de tão grande abrangência que merece considerações à parte, em outro texo.