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Brasil e o BRICS: A Presidência Brasileira do Grupo em 2025 e os Novos Desafios Sistêmicos

21/02/2025

 Por Victor Hugo Santos Tito Moreno

Bacharel em Relações Internacionais
pelo Centro Universitário IBMR
Email: Victormoreno8@icloud.com

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Resumo

O artigo analisa a presidência brasileira do BRICS em 2025, destacando os desafios geopolíticos e sistêmicos enfrentados pelo grupo no cenário internacional atual. Com a ampliação recente do bloco, a inclusão de novos membros reforça o objetivo de maior representatividade dos países emergentes. No entanto, a conjuntura global apresenta obstáculos significativos, como a crescente rivalidade entre Estados Unidos e China, a reeleição de Donald Trump e o fortalecimento da extrema-direita em diversas nações. Além disso, as tensões dentro da OTAN e os impactos da política externa norte-americana afetam diretamente a atuação do BRICS. O estudo contextualiza a liderança brasileira no grupo em comparação com períodos anteriores, avaliando as implicações estratégicas para o Brasil e os demais países-membros.

Palavras-chave: BRICS, Brasil, política internacional, governança global, potências emergentes, geopolítica, desafios sistêmicos.

 

Abstract

This article examines Brazil’s presidency of the BRICS in 2025, highlighting the geopolitical and systemic challenges faced by the group in the current international landscape. With the recent expansion of the bloc, the inclusion of new members strengthens the goal of greater representation for emerging countries. However, the global context presents significant obstacles, such as the growing rivalry between the United States and China, Donald Trump’s re-election, and the rise of far-right movements in various nations. Additionally, tensions within NATO and the impact of U.S. foreign policy directly affect BRICS’ operations. This study contextualizes Brazil’s leadership in the group compared to previous periods, assessing the strategic implications for Brazil and other member states.

Keywords: BRICS, Brazil, international politics, global governance, emerging powers, geopolitics, systemic challenges.

 

Introdução

Nas últimas décadas, o sistema internacional tem passado por profundas transformações, impulsionadas pelo declínio relativo da hegemonia ocidental e pela ascensão de novas potências emergentes. Em meio a esse processo, o BRICS consolidou-se como um dos principais mecanismos de cooperação entre países em desenvolvimento, desafiando as tradicionais estruturas de governança global dominadas pelos Estados Unidos e pela União Europeia. Criado no início dos anos 2000, o grupo, composto inicialmente por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, tinha como objetivo fortalecer o papel das economias emergentes na definição das regras do sistema internacional. No entanto, sua recente expansão e as dinâmicas geopolíticas contemporâneas impõem desafios inéditos à sua atuação e coesão.

A presidência brasileira do BRICS em 2025 ocorre em um momento de crescente instabilidade global. A reeleição de Donald Trump nos Estados Unidos, acompanhada por um discurso protecionista e ameaças diretas ao bloco, somada ao fortalecimento de governos de extrema- direita na Europa e na América Latina, cria um ambiente de tensões para as relações multilaterais. Paralelamente, a ampliação do BRICS com a inclusão de novos membros — como Arábia Saudita2, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã — reforça o caráter multipolar do grupo, mas também exige maior articulação política e diplomática para evitar fragmentações internas. Além disso, as disputas comerciais sino-americanas, os desdobramentos da guerra na Ucrânia e o questionamento da supremacia do dólar nas transações internacionais colocam o BRICS no centro de um debate sobre o futuro da ordem global.

Nesse contexto, a liderança do Brasil representa tanto uma oportunidade quanto um desafio. O país, historicamente reconhecido por sua tradição diplomática e defesa do multilateralismo, tem a possibilidade de assumir um papel de mediador em disputas internas do bloco e projetar sua influência em temas estratégicos. No entanto, a necessidade de equilibrar interesses divergentes entre os membros, aliada a pressões externas, exige uma abordagem cuidadosa e pragmática.

Diante dessa conjuntura, este artigo busca analisar os desafios e oportunidades da presidência brasileira do BRICS em 2025, considerando a nova configuração do grupo e o cenário geopolítico global. Para isso, a pesquisa estrutura-se em quatro seções: a primeira aborda a evolução histórica e institucional do BRICS, explorando sua trajetória desde a fundação até a recente ampliação; a segunda examina os impactos da expansão do bloco e os desafios da sua governança interna; a terceira investiga as implicações geopolíticas da reeleição de Donald Trump, o fortalecimento da extrema-direita e as tensões dentro da OTAN para a atuação do BRICS; por fim, a conclusão sintetiza os principais achados e discute as perspectivas futuras para a cooperação entre os países-membros.

A ascensão do BRICS como um ator geoeconômico e geopolítico relevante no cenário internacional remonta ao início dos anos 2000, período em que o agrupamento emergiu como uma plataforma de contestação à ordem unipolar hegemônica liderada pelos Estados Unidos e pela União Europeia. Inicialmente concebido como uma coalizão de potências emergentes – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul –, o bloco passou por uma reconfiguração estrutural em 2025, ampliando sua composição para abarcar novos Estados com aspirações estratégicas à multipolaridade e à redistribuição de poder no sistema internacional. No contexto da transição da presidência rotativa da Rússia (2024) para o Brasil (2025), o BRICS passou por um processo de ampliação institucional, consolidando sua relevância como fórum de articulação entre potências emergentes e países do Sul Global. A incorporação de novos membros plenos – Arábia Saudita², Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã – e a adesão de Estados parceiros, como Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda e Uzbequistão, evidenciam uma reconfiguração da governança global, na qual os países em desenvolvimento buscam maior margem de manobra e autonomia estratégica diante das instituições financeiras e políticas tradicionais.

Entretanto, o Brasil assume a liderança do bloco em um momento de alta volatilidade no sistema internacional. Diferentemente dos períodos de 2010 e 2014, quando o país já havia ocupado a presidência do BRICS sob as administrações de Lula e Dilma Rousseff, o atual cenário apresenta desafios mais complexos. Durante essas gestões anteriores, as potências ocidentais, especialmente os membros do G7, mantinham uma postura de contenção estratégica em relação à ascensão da China e da Rússia, sem implementar medidas coercitivas severas contra o BRICS. Em contraste, a conjuntura de 2025 reflete um ambiente de rivalidade sistêmica exacerbada, impulsionada pelo recrudescimento da guerra comercial sino-americana, pelo aprofundamento do conflito na Ucrânia e pelas disputas tecnológicas e energéticas globais. O período Bolsonaro (2019-2022) representou um afastamento estratégico do Brasil em relação à dinâmica cooperativa do BRICS, gerando tensões diplomáticas significativas com China e Rússia. No mesmo período, a presidência de Donald Trump nos EUA já sinalizava um reposicionamento estratégico de Washington frente ao bloco, especialmente com a consolidação do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e a adoção de mecanismos alternativos ao dólar nas transações comerciais intrabloco.

Agora, sob o governo Lula III, a conjuntura internacional se torna ainda mais desafiadora. A reeleição de Donald Trump em 2024 e a ascensão da extrema direita em países estratégicos, como Itália e Argentina, impõem novos obstáculos à atuação brasileira no BRICS. O retorno de Trump à Casa Branca marca a intensificação da pressão econômica sobre o bloco, com ameaças explícitas de sobretaxação de 100% sobre transações comerciais do BRICS caso o grupo avance na desdolarização de suas operações financeiras. Além disso, o apoio explícito dos EUA à Ucrânia no conflito contra a Rússia insere um elemento de tensão adicional, desafiando a coesão interna do bloco e exigindo do Brasil uma postura diplomática sofisticada para equilibrar seus interesses estratégicos no BRICS sem deteriorar relações comerciais essenciais com os Estados Unidos e a União Europeia. Diante desse cenário de interdependência complexa, competição geoeconômica e reconfiguração da governança global, o Brasil enfrenta a tarefa de conciliar interesses divergentes dentro do BRICS, fortalecer sua influência como líder regional e preservar sua autonomia estratégica em um ambiente de pressões externas crescentes. O desfecho desse período poderá redefinir não apenas o papel do Brasil no bloco, mas também a própria viabilidade do BRICS como um contrapeso efetivo às estruturas tradicionais do poder global.

 

A Economia dos Estados-Membros do BRICS em Comparação com o G7

A dinâmica econômica dos Estados que compõem o BRICS, quando contraposta ao G7, apresenta distinções estruturais significativas:

  • G7 – Conjunto de economias altamente industrializadas e consolidadas, caracterizadas por elevado grau de desenvolvimento socioeconômico e tecnológico.
  • BRICS – Bloco formado por economias emergentes, cujas estruturas produtivas ainda se encontram em processo de industrialização e consolidação no cenário global.

Para além das disparidades econômicas, a diferença entre os grupos também se manifesta no campo político. O G7 é composto por Estados predominantemente ocidentais, cujos sistemas políticos e econômicos, ainda que com nuances, apresentam relativa homogeneidade, geralmente alinhados às diretrizes dos Estados Unidos. Em contrapartida, o BRICS é marcado pela heterogeneidade tanto em sua orientação econômica quanto na configuração político-diplomática. Enquanto Brasil e Índia mantêm vínculos mais estreitos com o Ocidente, China e Rússia estão fortemente integradas ao eixo oriental, resultando em um bloco de interesses diversificados e, por vezes, contraditórios. Embora Brasil e Índia possuam relações comerciais significativamente entrelaçadas com potências ocidentais, notadamente a União Europeia e os Estados Unidos, a busca por uma economia mais diversificada e menos dependente de grandes potências figura como um fator de convergência entre os membros do BRICS. Essa estratégia de ampliação de parcerias já demonstra impactos positivos, ainda que em proporções distintas, para os países do bloco.

A grande questão que se impõe é: de que maneira economias em desenvolvimento, que ainda apresentam alto grau de dependência das nações industrializadas, podem consolidar-se para reivindicar maior protagonismo no cenário econômico internacional?

 

Perspectivas Internas: Rússia, China e Brasil

Sob a ótica russa, a imposição de sanções e embargos econômicos por parte do Ocidente, decorrente do conflito com a Ucrânia, evidenciou a necessidade de aprofundamento das relações intra-BRICS. O fortalecimento desses laços permitiu à Rússia promover um remanejamento comercial, atenuando os impactos das restrições impostas e evitando que tais adversidades inviabilizassem sua estratégia de expansão de influência geopolítica.

A China, por sua vez, enfrenta um recrudescimento das hostilidades comerciais com os Estados Unidos, especialmente sob a liderança de Donald Trump. Como resposta, Pequim adotou uma estratégia de longo prazo, intensificando suas relações com Estados africanos e asiáticos, tanto como destinos para seus produtos quanto como fornecedores de matérias-primas. Esse processo tem sido interpretado por alguns acadêmicos como um fenômeno de neocolonialismo chinês no continente africano, dada a profunda dependência econômica que diversos países africanos vêm desenvolvendo em relação à China.

No caso brasileiro, a conjuntura revela uma situação mais complexa. Os Estados Unidos e a China figuram como seus principais parceiros comerciais, porém, a recente conclusão do Acordo Mercosul-União Europeia, após duas décadas de negociações, tende a ampliar ainda mais a inserção do Brasil no mercado europeu. Esse novo cenário posiciona o país em um eixo estratégico de intermediação entre os interesses ocidentais e as relações estabelecidas no âmbito do BRICS.

 

O Banco do BRICS: Alternativa ou Complemento?

O Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), instituído em 2014 e popularmente denominado Banco do BRICS, representa um marco na institucionalização do bloco e na busca por autonomia financeira em relação a organismos ocidentais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. Seu objetivo central é o financiamento de projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável para os Estados-membros. Nos últimos anos, no entanto, sua atuação tem se expandido para incluir financiamentos a outros países emergentes, independentemente de integrarem formalmente o BRICS. Todavia, o banco ainda enfrenta desafios consideráveis. Seu volume de recursos permanece significativamente inferior ao do FMI e do Banco Mundial, limitando seu alcance e capacidade de influência. Ainda assim, sua existência constitui um avanço na diversificação das fontes de financiamento disponíveis para os países em desenvolvimento, reduzindo sua necessidade de recorrer exclusivamente a instituições controladas por potências ocidentais.

 

Brasil e a Presidência do BRICS

A evolução da geopolítica e da economia internacional ocorre de maneira dinâmica, e, nesse contexto, o Brasil assume a presidência rotativa do BRICS. O governo brasileiro enfrenta o desafio de equilibrar suas relações com os Estados Unidos e a União Europeia, ao mesmo tempo em que mantém laços estratégicos com China e Rússia – dois países que, em diversas conjunturas, encontram-se em posições antagônicas em relação ao Ocidente. O terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva evidencia a complexidade desse equilíbrio diplomático, uma vez que o Brasil busca protagonismo global sem alienar parceiros de diferentes espectros geopolíticos. Esse malabarismo estratégico definirá o grau de influência que o país poderá exercer no cenário internacional nos próximos anos.